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01.12.2014

O que faço se considero minha empresa antiética?

 

Marco Tulio Zanini é professor e coordenador do mestrado executivo
em gestão empresarial da FGV e consultor da Symballein.

 

 

 

O que faço se considero minha empresa antiética?

 

Trabalho há três anos em uma multinacional de origem francesa e ocupo o cargo de diretor. Recentemente, a companhia realizou uma força-tarefa com executivos de todo o mundo para definir estratégias que resultariam em melhorias na produção e corte de custos. Fiquei bastante incomodado com parte das sugestões, discussões e decisões que acabaram sendo definidas pela matriz. Considero algumas dessas diretrizes um tanto quanto duvidosas e até mesmo antiéticas. Expressei minha opinião posteriormente para meu superior e ele disse para eu ficar tranquilo, que o mundo dos negócios é assim mesmo. Pensei em pedir demissão, mas desisti, pois dependo dessa remuneração para honrar compromissos pelo menos até o fim do ano que vem. O que devo fazer?

Diretor, 38 anos

 

 

Marco Tulio Zanini responde:

 

Quem pensa que o capitalismo é destituído de regras morais está enganado. Não se produz riqueza sem a cooperação de muitos ao longo do tempo, gerando reputações individuais e vínculos baseados em confiança e reciprocidade. Mas o que é ética e como ela opera nos mercados não é uma questão simples - e a sua carta não me dá pistas do que você está considerando falta de ética.

 

A questão é que tanto executivos inescrupulosos quanto os que agem baseados em valores éticos conquistam posições de poder e sucesso em seus negócios. O discernimento não é tão fácil. No entanto, há um abismo que separa o inescrupuloso, e até mesmo os psicopatas, daqueles que trilham o seu caminho estabelecendo um limite para negociar seus valores pessoais.

 

Os primeiros buscam o interesse pessoal a qualquer custo, independentemente do impacto nos outros e no futuro da própria organização. Mas, muitas vezes, o alto escalão precisa fazer escolhas difíceis para retomar a lucratividade e garantir o futuro do negócio.

 

Joseph Schumpeter sintetiza bem a natureza desses esforços ao definir o capitalismo como um sistema econômico baseado na destruição criativa. Organizações que relaxaram da sua capacidade competitiva ao longo do tempo normalmente precisam fazer ajustes mais duros. Muitas precisaram demitir pessoas ao longo da sua história para sobreviver. Outras foram engolidas pela dificuldade de passar por crises de forma ética, relaxando do cuidado necessário com a dignidade das pessoas nos momentos difíceis.

 

Olhando em uma perspectiva mais macro, muitas multinacionais investiram nos BRICs nos últimos anos na esperança de obter o crescimento e os rendimentos que não conseguiam em seus países de origem. Vieram com fome, esperando e prometendo aos seus acionistas crescimento de dois dígitos e rentabilidade à altura dos riscos de investir em mercados como o nosso. A promessa não se realizou e, com 2015 se anunciando como um ano de crise no Brasil, a situação fica ainda mais dramática.

 

Temos dois desafios a enfrentar: nossa produtividade é baixa em termos globais, a nossa disciplina operacional é ruim (temos muitos acidentes de trabalho, perdas não mensuradas por falta de planejamento, retrabalho causado pelo foco excessivo nos controles e no curto prazo, dentre outros) e os nossos custos estão subindo.

 

Não é raro que os executivos brasileiros negligenciem a sua tarefa de fazer análises consistentes do contexto e da conjuntura e acabem por não ter argumentos e fatos robustos para convencer a matriz a buscar alternativas.

 

A maior parte das multinacionais opera no mercado de ações com regras de compliance e governança rigorosas. Os riscos de adotar comportamentos antiéticos são grandes para as organizações que o fazem e dificilmente os conselhos aprovam ações que podem se configurar em riscos para o negócio.

 

Se a sua conclusão for que, de fato, a empresa está sendo antiética, o mercado de trabalho continua estável e com muitas ofertas. Quem for tratado injustamente ou se sentir prejudicado pode facilmente trocar de emprego - coisa que não víamos no passado. As empresas terão que aprender a lidar com esse aumento de liberdade que as pessoas obtiveram com o aumento das oportunidades econômicas. Ou aprendem a negociar melhor, ou podem ficar sem mão de obra para tocar suas atividades. Se esse for o caso, você não precisa esperar o fim do ano que vem para começar a se movimentar.

 

 

 

Marco Tulio Zanini autorizou a publicação deste artigo. 
Fonte: Valor Econômico

 

 

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